Na publicação anterior referi que:
"Gastar quantias monetárias em roupa ou em saídas à noite pode ser evitável, mas talvez neste momento, fonte de satisfação para a pessoa em questão. Que não se equipara ao assalariato de seres humanos em meios de produção. Porém se é um refúgio psicológico, deveria ser investigado."
Tal afirmação serve apenas para retirar o julgamento moral de tal equação, tendo em conta a complexidade psicológica do indivíduo em questão. Não considero gastar "quantias monetárias em roupa ou em saídas à noite quando evitável" frequentemente, saudável, tendo chamado a atenção para o refúgio psicológico, mas não o posso considerar socialmente irresponsável. Para ser possível falar em responsabilidade ou irresponsabilidade, convém o indivíduo estar psicologicamente saudável e com um grau de consciência elevado sobre a acção que irá realizar, o que é raro na nossa civilização. Sofremos de inconsciência social.
A nossa sociedade está também muito assente na noção de que o outro é "responsável", porém os restantes não, daí a existência, por exemplo, das prisões. Todas criamos o meio envolvente com as nossas relações e acções, não esquecendo aquelas que já não estão tão presentes como haviam estado. A única razão para o consumo (que obviamente mantém a demanda) "não se equiparar ao assalariato de seres humanos em meios de produção" é que não tem a mesma relevância, devido ao grau de consciência existente como classe económica x ou y. Aqueles que possuem os meios de produção, que monopolizam o capital, têm os meios necessários para sustentar uma estratégia eficaz e lucrativa de alienação, onde os vícios e os factores psicológicos de cada uma de nós são utilizados para manter o sistema de forma satisfatória. Daí a importância de investir em alternativas e na emancipação de cada uma de nós, para além da organização e resistência contra o discurso do sistema.
Reproduzir os hábitos de opressão até à revolução, não é solução.
A problematização dos dois casos apresentados é-me bastante interessante, apesar de para muitos provavelmente parecer demasiado inútil. Não tem a ver com podíamos estar a fazer outra coisa com o nosso dinheiro, essa moral é um tanto barata, e utilizada pelos bancos alimentares entre outras tantas instituições que ajudam impérios de redistribuição de recursos a refortificarem-se.
O caso da "roupa" é mais complexo do que o que a maioria das pessoas já pensa saber: a indústria têxtil tem como base o "cheap labour" e também o trabalho infantil; é altamente degradante para o nosso planeta, devido à utilização de organismos geneticamente modificados, que poluem os lençóis freáticos; a cultura do algodão tem levado muitos agricultores indianos ao suicídio, que não conseguindo ter sucesso a sustentar a sua família devido à pressão económica, não vêem solução para o seu desespero se não a morte; e o desejo de adquirir imensas peças de roupa, ou até quando se pensa que caro = bom (claro que em alguns casos confirma-se), vem de uma vontade de aceitação exterior e interior profunda, e de seguir tendências e novidades que nada trazem à vida de cada uma de nós, sem ser satisfação momentânea. A facilidade de adquirir novos objectos, característica do capitalismo no primeiro mundo, retira-lhes o seu valor e conexão emocional.
Quanto a saídas à noite estou a problematizar a ida a clubes e bares apenas quando os mesmos lucram com a opressão sofrida por comunidade x ou y, ou praticam discriminação por género (por preço de entrada por exemplo) ou racial e por aparência. Razão psicológica para esta não faço ideia, sem ser querer socializar. Espaços nocturnos não me parecem ser um problema, só mesmo as políticas e organização de alguns. Talvez o mero factor de ópio para uns? De engate, denotando o afastamento (ou inexistência) das relações humanas comunitárias no nosso quotidiano?
Será que o afogamento das nossas mágoas em algo que não as cura, que muito pelo contrário, estimulam o seu desenvolvimento, deve ser a atitude a aplicar por um inimigo assumido da ideologia vigente? Ao menos roubem, meus queridos lumpens.
"Quando é que as pessoas pararam de se importar? Uma das visões dos teóricos culturais marxistas como Antonio Gramsci é que em ordem para a opressão funcionar calmamente, a ideologia tem de ser transferida dos opressores para os oprimidos. Eles não podem cercar-nos 24 horas por dia com armas. Esta transferência tem de ser consensual e activamente abraçada para trabalhar numa escala do tamanho de uma sociedade. Se a classe dominante consegue fazer com que a ideologia seja agradável, então ainda melhor. Nada poderia ter desenvolvido isto melhor que o estimulante à passividade, viciante e isolador das tecnologias, primeiro a televisão e depois a Internet."
- Lierre Keith, Deep Green Resistance: A Strategy to Save the Planet
Antes de mais os refúgios que falas não são evitáveis, frequentes ou não, tudo depende da nossa primeira prisão: o nosso corpo como dizia Platão.
ResponderEliminarEm primeiro lugar e acerca da tal consciência social: é como ver o mundo de forma positiva ou negativa, quando alguém tropeça temos de pensar que «tropeçou agora tem de se levantar e continuar» em vez de pensarmos que «o mundo é mau pois dá-nos a possibilidade de cairmos e aleijarmo-nos etc», e aplica-se, segundo a moral cristã, terrivelmente nos tais refúgios: temos de pensar que com aquelas roupas vamos nos sentir bem, e que vamos brilhar mais socialmente, e temos de ignorar as criancinhas e mais não sei quantos que morrem para fazer-nos sentir bem.
É de facto um texto muito político no sentido que cria orações quase aleatórias do género para disfarçar, faz lembrar os discursos dos políticos principalmente dos da direita. Mas nos últimos parágrafos já esteve melhor, agora é pena que só melhore quando tende a ser diretamente objetivo.
A vida noturna sempre existiu mas alargou-se com a maior capacidade de consumo da sociedade no início do Séc.XX, e o clima de tensão social (guerras exemplificadamente) só valorizava estes «refúgios», não é por acaso que atualmente as cidades onde há maior vida boémia sejam as fulcrais do mundo em guerra atual: Miami e Jerusalém.
"Antes de mais os refúgios que falas não são evitáveis, frequentes ou não, tudo depende da nossa primeira prisão: o nosso corpo como dizia Platão." Obviamente que dependerá de caso para caso, tendo factores económicos e sociais como relevantes.
Eliminar"Em primeiro lugar e acerca da tal consciência social: é como ver o mundo de forma positiva ou negativa, quando alguém tropeça temos de pensar que «tropeçou agora tem de se levantar e continuar» em vez de pensarmos que «o mundo é mau pois dá-nos a possibilidade de cairmos e aleijarmo-nos etc», e aplica-se, segundo a moral cristã, terrivelmente nos tais refúgios: temos de pensar que com aquelas roupas vamos nos sentir bem, e que vamos brilhar mais socialmente, e temos de ignorar as criancinhas e mais não sei quantos que morrem para fazer-nos sentir bem."
Tratas de um caso em que só tu estás envolvido para passar a um onde metes outras pessoas também em sofrimento, parece-me uma falsa analogia.
"É de facto um texto muito político no sentido que cria orações quase aleatórias do género para disfarçar, faz lembrar os discursos dos políticos principalmente dos da direita. Mas nos últimos parágrafos já esteve melhor, agora é pena que só melhore quando tende a ser diretamente objetivo."
Tenho falado por equações para poupar no vocabulário e não ter de dizer expressões que para algumas pessoas inclusivé eu já se tornaram desactualizadas para o nosso momento civilizacional.
Bastante interessante essa informação
Fases efémeras que toda a gente tem.
ResponderEliminarBeatitude aos fortes que as podem evitar com toda a destreza.
Se eu pudesse ser como tu é claro que escolheria essa opção mas não tenho essa liberdade, ou seja se já somos tão enclausurados por natureza, porquê ainda criar fronteiras? Temos de ser 100 por cento libertários.