sexta-feira, 17 de julho de 2015

Consumo


  Na publicação anterior referi que:
       "Gastar quantias monetárias em roupa ou em saídas à noite pode ser evitável, mas talvez neste momento, fonte de satisfação para a pessoa em questão. Que não se equipara ao assalariato de seres humanos em meios de produção. Porém se é um refúgio psicológico, deveria ser investigado."

   Tal afirmação serve apenas para retirar o julgamento moral de tal equação, tendo em conta a complexidade psicológica do indivíduo em questão. Não considero gastar "quantias monetárias em roupa ou em saídas à noite quando evitável" frequentemente, saudável, tendo chamado a atenção para o refúgio psicológico, mas não o posso considerar socialmente irresponsável. Para ser possível falar em responsabilidade ou irresponsabilidade, convém o indivíduo estar psicologicamente saudável e com um grau de consciência elevado sobre a acção que irá realizar, o que é raro na nossa civilização. Sofremos de inconsciência social.

   A nossa sociedade está também muito assente na noção de que o outro é "responsável", porém os restantes não, daí a existência, por exemplo, das prisões. Todas criamos o meio envolvente com as nossas relações e acções, não esquecendo aquelas que já não estão tão presentes como haviam estado. A única razão para o consumo (que obviamente mantém a demanda) "não se equiparar ao assalariato de seres humanos em meios de produção" é que não tem a mesma relevância, devido ao grau de consciência existente como classe económica x ou y. Aqueles que possuem os meios de produção, que monopolizam o capital, têm os meios necessários para sustentar uma estratégia eficaz e lucrativa de alienação, onde os vícios e os factores psicológicos de cada uma de nós são utilizados para manter o sistema de forma satisfatória. Daí a importância de investir em alternativas e na emancipação de cada uma de nós, para além da organização e resistência contra o discurso do sistema.

   Reproduzir os hábitos de opressão até à revolução, não é solução.

  A problematização dos dois casos apresentados é-me bastante interessante, apesar de para muitos provavelmente parecer demasiado inútil. Não tem a ver com podíamos estar a fazer outra coisa com o nosso dinheiro, essa moral é um tanto barata, e utilizada pelos bancos alimentares entre outras tantas instituições que ajudam impérios de redistribuição de recursos a refortificarem-se.

   O caso da "roupa" é mais complexo do que o que a maioria das pessoas já pensa saber: a indústria têxtil tem como base o "cheap labour" e também o trabalho infantil; é altamente degradante para o nosso planeta, devido à utilização de organismos geneticamente modificados, que poluem os lençóis freáticos; a cultura do algodão tem levado muitos agricultores indianos ao suicídio, que não conseguindo ter sucesso a sustentar a sua família devido à pressão económica, não vêem solução para o seu desespero se não a morte; e o desejo de adquirir imensas peças de roupa, ou até quando se pensa que caro = bom (claro que em alguns casos confirma-se), vem de uma vontade de aceitação exterior e interior profunda, e de seguir tendências e novidades que nada trazem à vida de cada uma de nós, sem ser satisfação momentânea. A facilidade de adquirir novos objectos, característica do capitalismo no primeiro mundo, retira-lhes o seu valor e conexão emocional.

   Quanto a saídas à noite estou a problematizar a ida a clubes e bares apenas quando os mesmos lucram com a opressão sofrida por comunidade x ou y, ou praticam discriminação por género (por preço de entrada por exemplo) ou racial e por aparência. Razão psicológica para esta não faço ideia, sem ser querer socializar. Espaços nocturnos não me parecem ser um problema, só mesmo as políticas e organização de alguns. Talvez o mero factor de ópio para uns? De engate, denotando o afastamento (ou inexistência) das relações humanas comunitárias no nosso quotidiano?

   Será que o afogamento das nossas mágoas em algo que não as cura, que muito pelo contrário, estimulam o seu desenvolvimento, deve ser a atitude a aplicar por um inimigo assumido da ideologia vigente? Ao menos roubem, meus queridos lumpens.

  "Quando é que as pessoas pararam de se importar? Uma das visões dos teóricos culturais marxistas como Antonio Gramsci é que em ordem para a opressão funcionar calmamente, a ideologia tem de ser transferida dos opressores para os oprimidos. Eles não podem cercar-nos 24 horas por dia com armas. Esta transferência tem de ser consensual e activamente abraçada para trabalhar numa escala do tamanho de uma sociedade. Se a classe dominante consegue fazer com que a ideologia seja agradável, então ainda melhor. Nada poderia ter desenvolvido isto melhor que o estimulante à passividade, viciante e isolador das tecnologias, primeiro a televisão e depois a Internet."
- Lierre Keith, Deep Green Resistance: A Strategy to Save the Planet


domingo, 5 de julho de 2015

Todos somos egoístas

Esta é uma publicação consultório para anarcas, anticapitalistas, ativistas dos direitos dos animais, etc.
Tudo partiu do P.S. desta outra publicação num blog amigo.

"Assim que deixamos de nos identificar com a cultura dominante, já não somos nós que estamos mal, mas a cultura. Então quebra a tua identificação com a cultura, e põe as mãos à obra para acabar com o capitalismo." - Derrick Jensen

   Ativistas sociais radicais, em geral, muitas das vezes têm a sua preocupação e dedicação social convertida em auto-perseguição ético-moral.
É na verdade algo bastante interessante de se observar, sendo que nos transmite a importância daquele tópico para aquele ser, porém a maior parte das vezes não muito prazeroso de se experienciar.

   A busca pela coerência tem tendência a tornar-se obsessiva, sendo que num sistema económico-político-social não compatível com os nossos valores, vemos os valores contrários a ser constantemente reproduzidos.

   Entender que dentro do sistema xy a nossa moralidade nunca se concretizará como idealmente visualizamos, é essencial para não darmos em loucos. É isso que nos faz lutar contra xy. Ao mesmo tempo temos também de perceber que tal não é desculpa para sermos socialmente irresponsáveis, e harmonizar estas duas condicionantes não costuma ser tarefa fácil.

   Gastar quantias monetárias em roupa ou em saídas à noite pode ser evitável, mas talvez neste momento, fonte de satisfação para a pessoa em questão. Que não se equipara ao assalariato de seres humanos em meios de produção. Porém se é um refúgio psicológico, deveria ser investigado.

   Enquanto não existem alternativas para as necessidades sociais que temos, então teremos que aguentar com o que andamos a estranhar. Mas se tal for sentido de forma negativa, talvez seja hora de procurar ou até mesmo iniciar as mesmas.

"Todos somos egoístas, todos procuramos satisfação própria. Mas o anarquista encontra a sua maior satisfação na luta pelo bem de todos, por uma sociedade em que possa ser um irmão entre irmãos, entre gente sã, inteligente, educada, e alegre. Aquele que se adapta, que está satisfeito em viver entre escravos e obtém quantias com o trabalho dos escravos, não é, nem pode ser, anarquista." - Errico Malatesta


quarta-feira, 1 de julho de 2015

Quebra

   Estava eu a ressuscitar uma conta de nuvem encriptada, que devido à ligação com o e-mail desta conta, fez-me entrar na Caixa de Entrada da mesma, e dou com uma mensagem de alguém que leu o blog inteirinho (Parabéns!) a requisitar mais textos da minha parte neste querido espaço virtual.

   Já tinha eu também pensado nisso, passei por aqui, e aliás, até a um amigo ou dois passei-o. Mas afastei-me dele.

   Não tinha ainda conectado os pontos, torna-se perceptível na minha cabeça que o meu caminhar contrário em relação a este lugar se deu devido à componente social que cada vez mais cresceu e solidificou, ocupando não só o meu tempo mas a vontade de reflectir aqui, porque pude começá-lo a fazer com outras pessoas.

   Desenvolvi velhas e novas amizades, comecei a sair mais, o horário da escola também aumentou e o número de trabalhos para fazer não poderia ficar indiferente.

   Ocorreu também sem dúvida um corte em alguns temas ou focos de interesse, falar sobre crushes à distância (aka Ezra Miller), escrever sobre utopias de centralização urbana estudantil (que já não é com certeza a minha proposta no campo educacional), ou ainda metafísica New Age, já não me vai na alma.

   Considero que me tornei mais prática, para o bem ou para o mal, sinto que tenho os pés mais na Terra. Que retórica ética/religiosa de primeiro mundo da classe média branca não me serve nem tem potencial para mudar alguma coisa.

   Envolvi-me com o movimento anarquista, áreas estudantil e laboral, e dancei cada vez mais com o feminismo e com o movimento queer. Pensando nisto arrependo-me de publicações com conteúdo misógino e ilusório, de forte especulação, e também duma onda afincadamente GGGG que se foi desenvolvendo. O que para mim como genderqueer é altamente triggering!

   Feliz primeira publicação de 2015, e que venham muitas mais.
   P.S.: Stonewall foi a 28 de Junho e hoje estamos a 1 de Julho, portanto ainda vale a pena desejar muita coragem e revolta queer para este ano.

Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa 2015